“Quando se aprende a tragar, aí já era. É muito difícil parar.” A frase é de José Raimundo Cavalcante, conhecido como seu Dedé, aposentado de 68 anos que fumou por quase seis décadas. O primeiro contato com o cigarro aconteceu ainda na infância, dentro de casa, ao ver os pais fumando cachimbo. O que começou como curiosidade virou dependência e acompanhou grande parte da vida dele.
“Quando eu era criança, meus pais fumavam cachimbo, pediam para eu pegar o fumo. Eu achava cheiroso e aí foi... quando aprendi a tragar, não consegui mais parar”, relembra.
Com o passar dos anos, o hábito se intensificou. Seu Dedé chegou a fumar dois maços de cigarro por dia e, aos poucos, começou a sentir os impactos do tabagismo na saúde. O cansaço constante, as dores nas pernas e a dificuldade para realizar atividades simples passaram a fazer parte da rotina.
Em 2017, durante uma consulta médica em Fortaleza, ele recebeu um alerta que mudaria sua vida: precisava parar de fumar ou poderia perder a perna. Foi nesse momento que conheceu o Programa de Controle do Tabagismo do Ministério da Saúde, desenvolvido em Fortaleza por meio da Secretaria Municipal da Saúde (SMS).
A partir do acolhimento na unidade de saúde, seu Dedé iniciou o tratamento com acompanhamento multiprofissional, participação em grupos de apoio e uso de medicação. Apesar da vontade de abandonar o cigarro, o processo foi desafiador e exigiu persistência diante dos sintomas da abstinência.
Hoje, após dois anos sem fumar, ele comemora uma nova fase da vida, com mais saúde e disposição. A experiência também fez com que passasse a incentivar outras pessoas a procurarem ajuda na rede pública de saúde.
“Estou há dois anos sem fumar, isso é muito bom. Depois de tantos desafios, eu consegui parar. O grupo me ajudou muito e pode ajudar quem deseja parar de fumar”, destaca.
Tratamento e acolhimento nos postos de saúde
O Programa de Controle do Tabagismo está disponível nos 134 postos de saúde de Fortaleza, gerenciado pela Prefeitura de Fortaleza, por meio da Secretaria Municipal da Saúde (SMS).
O tratamento é gratuito, multidisciplinar e tem duração de 12 meses. O acompanhamento inclui triagem, avaliação do grau de dependência e da motivação do paciente, além de sessões de terapia comportamental individuais e em grupo. Quando necessário, também são disponibilizados medicamentos para auxiliar no processo de cessação do tabagismo.
Atualmente, 30 unidades de saúde contam com grupos de apoio ao tabagista, com encontros semanais. Para iniciar o tratamento, basta procurar a unidade de saúde mais próxima e manifestar o desejo de parar de fumar.
De acordo com o coordenador da Atenção Primária e Psicossocial de Fortaleza, Erlemus Soares, o acolhimento realizado pelas equipes de saúde é fundamental para ajudar os pacientes a enfrentarem a dependência e retomarem a qualidade de vida. “O tabagismo é uma dependência que impacta diretamente a saúde e a qualidade de vida das pessoas. Por isso, o acompanhamento ofertado pela Rede Municipal de Saúde é fundamental para acolher, orientar e apoiar quem deseja parar de fumar. Mais do que interromper o uso do cigarro, o tratamento ajuda o paciente a recuperar autoestima, saúde e bem-estar”, destaca.

Além da dependência química, o tabagismo está relacionado ao desenvolvimento de diversas doenças graves, como câncer de pulmão e câncer de boca. Em Fortaleza, foram registrados 445 óbitos por câncer de pulmão em 2025 e 164 em 2026. Já os casos de câncer de boca resultaram em 72 óbitos em 2025 e 22 em 2026.
