
Para Maria Conceição Dias de Albuquerque, a irmã Conceição, Fortaleza tem o tamanho do mundo. É, afinal, infinita a cidade que recebe e cuida de crianças e adolescentes que se deslocam do interior do Ceará e de outros estados para fazer tratamentos para câncer e outras doenças. À frente do Lar Amigos de Jesus, a Irmã Conceição está entre as quatro pessoas e instituições homenageadas com a Medalha Iracema em 2026. A comenda será entregue na próxima sexta-feira (10/4), no Cineteatro São Luiz, como parte das celebrações dos 300 anos de Fortaleza, que serão completados no próximo 13 de abril.
Massapeense de herança e fortalezense de trajetória, Conceição nasceu em Natal, no Rio Grande do Norte, em 1955, período em que seu pai, Francisco Albuquerque Aguiar, militar da aeronáutica, servia na base aérea local. Quinta filha da união entre Francisco e a professora Maria de Lourdes Dias de Albuquerque, Conceição pouco recorda da cidade natal. Algum tempo depois, a família retornou a Fortaleza, e ela cresceu em um ambiente dinâmico, marcado pela convivência com os cinco irmãos.
“A casa estava sempre cheia, e a minha família tinha uma vida muito tranquila, de amor, de vivenciar a alegria de viver, participando das santas missas, rezando o terço todo dia, esperando a hora das refeições para estar todo mundo junto”, conta.
Religiosa de tradição e prática cotidiana, a família acompanhou com naturalidade a vocação manifestada por Conceição desde pequena. “Não foi difícil eu ser religiosa, porque eu já tinha essa alegria de servir ao próximo. A coisa melhor do mundo é a gente ser feliz fazendo o outro feliz.”

Decidida a levar a vocação adiante, em 1982 ela fez sua primeira consagração. Nos anos seguintes Conceição viria a estudar teologia, filosofia e pedagogia. Tornou-se professora, profissão que exerceu por três décadas e que relembra com alegria. “Eu gostava de jovens, e a formação em catequese me ajudou muito nessa condução deles. A gente procurava valorizar cada jovem e ajudar aqueles que tinham mais dificuldades nos estudos, porque a rede pública tinha uma deficiência, e os alunos precisavam primeiro ter segurança de si mesmos, ter uma motivação para poder aprender. A motivação era ser feliz”.
Em 1987, após uma visita ao Hospital Albert Sabin, irmã Conceição abraçou a causa das crianças com câncer. “Eu fui com uma amiga, e quando encontramos essa realidade, isso tocou meu coração. A partir daí eu era outra pessoa”. Decidiu então, junto com seu grupo de missionários, trabalhar voluntariamente para acolher e hospedar crianças com câncer vindas do interior do Ceará e de outros estados para realizar o tratamento em instituições de referência como o Albert Sabin e a Associação Peter Pan.
“Começamos com quatro crianças, em uma casa emprestada. Mas, como o câncer está sempre aumentando, logo esse número aumentou”. A faixa etária das pessoas acolhidas também foi estendida de zero a 12 anos para até 18 anos, e as adversidades acompanhavam a lida diária, sendo resolvidas conforme apareciam. “Eu me lembro que uma vez estávamos com dificuldade de conseguir mistura, a carne, e aí, quando foi de noite, chegou uma pessoa jogando fardo de frango”, conta ela. A ampliação da estrutura e a melhoria das condições de atendimento vieram aos poucos, graças ao apoio de doadores.
À primeira vista, havia a impressão de que a experiência no magistério seria suficiente para lidar com os desafios do acolhimento, entretanto, foi na prática que os voluntários do Lar Amigos de Jesus aprenderam a cuidar das crianças e adolescentes que recebem e de suas famílias.
“Percebemos que era uma outra realidade. Eu não ia ensinar, eu ia aprender. Nós estamos lidando com pessoas, com famílias, que vêm de longe para o tratamento, e elas precisam de amor, de esperança, de uma boa alimentação, de aconchego, de um lugar que possa dar segurança e também fé, para poderem acreditar que vão ser curados”.
Além do amparo das primeiras necessidades, com a garantia da segurança alimentar e de alojamento confortável, o Lar Amigos de Jesus também possui 15 projetos sociais que contribuem para o bem-estar e a saúde integral das crianças acolhidas e de seus familiares. “Quando as famílias chegam aqui, chegam naquela aflição, porque estão com uma criança com câncer, e às vezes até nem compreendem bem o que é o câncer”, explica Conceição, acrescentando que o afeto é um recurso essencial para atenuar esse sofrimento. As crianças e suas famílias são abraçadas pelo Lar.
As estratégias de acolhimento não se limitam à hospitalidade dentro da grande casa que recebe as crianças e adolescentes. Dirigindo uma kombi, a irmã Conceição leva e traz as crianças e os adolescentes para o hospital. “Eu faço questão, porque isso faz com que essas crianças cheguem ao hospital leves. A gente vai cantando, conversando, mudando a música. Chegamos lá e está tudo ok, a mãe feliz da vida, pede a bênção à irmã e vão para o tratamento. É bem melhor assim”.

O transporte proporciona, ainda, passeios pela cidade. “A nossa Fortaleza é linda demais. Então nós vamos para a praia, para o teatro, as praças, o shopping, e participamos de momentos festivos”. A dedicação à alegria vem da certeza de que para ter saúde é preciso ter vontade de viver.
O amparo oferecido também inclui apoio sócio pedagógico e psicológico, disponibilização de medicamentos, ajuda de custo, alojamento para motorista e cesta básica no retorno ao domicílio. Entre os projetos desenvolvidos pela instituição estão oficinas de artes, atendimento odontológico, acompanhamento educacional, assistência religiosa e atividades recreativas.
O terreno da sede atual, localizada na Rua Idelfonso Albano, foi disponibilizado em regime de comodato pela Prefeitura. Com uma grande mobilização popular, arquitetos, construtoras e outras empresas contribuíram para a construção do prédio. O projeto foi pensado a partir de sugestões das crianças, de seus familiares e de voluntários do Lar Amigos de Jesus. “Foi uma coisa muito linda. Tudo foi feito gratuitamente. Nós não temos nada, mas temos tudo, porque temos Deus, que tocava no coração das pessoas, dos donos das empresas, e elas colaboravam para fazermos o que é hoje essa sede totalmente humanizada, que dá mais qualidade de vida para as crianças”.
Atualmente o Lar recebe entre 30 a 45 crianças por dia, cada uma com um acompanhante. Por mês, passam em média 150 a 200 crianças pela instituição, conforme as necessidades de cada caso. No início do tratamento, o tempo de permanência geralmente é de três meses, depois esse tempo diminui. “Eles têm agora duas casas, uma no interior e outra aqui. A do interior, onde eles nasceram. Aqui, onde eles renasceram”, contempla a freira.
Na hospitalidade do Lar, a Irmã Conceição vê refletida a vocação da cidade. “O Lar Amigos de Jesus recebe crianças de todos os municípios do Ceará, todos os municípios estão aqui, através das crianças acolhidas. Então Fortaleza oferece saúde, educação e assistência social dentro do Lar, e a cidade acolhe todo mundo, até crianças de outros estados. Como Fortaleza é grande! Tem uma grandeza espiritual”.
Ela também louva a solidariedade do povo fortalezense. É graças à população que a entidade se mantém. “Fortaleza existe a partir do nome forte e tem um povo com muita fé. É uma cidade solidária, que congrega aqui muitas pessoas para ajudar. A sociedade está aqui praticando o amor ao próximo”.
Para ela, o brilho da generosidade também se manifesta na sua escolha como homenageada. “Receber a Medalha Iracema é uma explosão de alegria e de reconhecimento. Não é só por mim, é por todas as pessoas, pelas crianças e famílias que fazem o Lar Amigos de Jesus. Fortaleza está de parabéns por ser uma cidade solidária, que cuida dos seus e reúne tanta gente disposta a ajudar”.
Celebrando os 300 anos de Fortaleza, Irmã Conceição deseja que a capital cearense seja cada vez mais solidária, mais bonita, que nosso povo tenha sempre o que comer e um teto para morar. Ela continuará trabalhando com o sorriso aberto de quem vive uma missão de alegria.
