15 de outubro de 2019 em Saúde

Centros de Atenção Psicossocial (Caps) de Fortaleza transformam realidades por meio de serviços terapêuticos

Música, fotografia, teatro, pintura e artesanato estão entre as atividades que fortalecem a reinserção social e resgatam a autoconfiança de pacientes em tratamento


senhora fazendo artesanato
A partir de uma linguagem didática e acessível, as atividades contemplam todos os níveis de capacidade cognitiva

Os Centros de Atenção Psicossocial (Caps) de Fortaleza vêm transformando realidades de pacientes em tratamento. Além das intervenções individuais, pautadas por atendimentos médicos, psicológicos e assistenciais, são desenvolvidas propostas terapêuticas grupais no âmbito da arte. Cinema, música, fotografia, teatro, pintura, escultura e artesanato estão entre as manifestações capazes de fortalecer a reinserção social, resgatar a autoestima e autoconfiança de pessoas diagnosticadas com transtornos mentais de diversas ordens.

A partir de uma linguagem didática e acessível, as atividades contemplam todos os níveis de capacidade cognitiva. “Há um extenso leque de distúrbios assistidos pela Rede de Atenção Psicossocial. Cada quadro apresenta uma manifestação sintomatológica diferente e, portanto, demanda um olhar específico. Dessa forma, torna-se possível desenvolver projetos terapêuticos singulares, individualmente apropriados a cada condição”, explica Perpétua Sousa, coordenadora do Caps Geral da Regional III.

Dentre os impactos positivos observados, elencam-se a potencialização da autonomia, do autocuidado, do convívio saudável, da expressão de sentimentos, da responsabilidade e da habilidade técnica. “A arte é um campo muito rico para se trabalhar com subjetividade, com o sujeito, com a elaboração da realidade”, acrescenta a gestora.

senhora com o rosto em uma câmera fotográfica
"Estou em tratamento e aqui vivo a fotografia como uma forma de arte em busca de novos horizontes", comenta paciente de 60 anos

Arte e Fotografia

Construir discursos, explorar percepções, desbravar ambientes, manifestar subjetividades, compartilhar vivências e desenvolver talentos. Para um grupo de 14 pessoas, pelas lentes de uma câmera fotográfica, a vida tem sido percebida e registrada por novas perspectivas.

Nesse contexto, a bipolaridade, a depressão, a esquizofrenia, os transtornos obsessivos compulsivos e a ansiedade perdem o protagonismo e dão lugar a olhares curiosos e desbravadores diante de uma Capital ainda desconhecida por alguns dos pacientes do Caps Geral da Regional III. A Catedral Metropolitana, o Mercado Central e o Centro Dragão do Mar de Arte e Cultura estão entre os lugares visitados pelo grupo de Arte e Fotografia Trilhas de Fortaleza.

De acordo com Derleide Andrade, assistente social do Caps e coordenadora do grupo, a iniciativa foi lançada em março deste ano e desde então, acontece semanalmente e fortalece a eficácia dos tratamentos medicamentosos tradicionais. “Há alternativas para pacientes com transtornos severos e persistentes. As atividades do grupo de fotografia trazem à tona expressões e emoções. Ao visitar e fotografar espaços culturais, praças e prédios históricos, o paciente em tratamento vai perdendo o medo e adquirindo a própria percepção do ambiente em que vive. Uma vez que se extrapolam os muros da própria casa e do Caps, trabalha-se o olhar da sociedade para o paciente e do paciente para a sociedade”, destaca.

As atividades incluem, ainda, a apresentação de documentários temáticos, a exposição das fotografias produzidas, o registro das impressões das vivências em campo e a troca de experiências. Os recursos e os materiais indispensáveis são adquiridos por meio da união de esforços intersetoriais que incluem doações de câmeras e empréstimos de celulares. “Esta é uma forma de valorizar o trabalho deles. É gratificante vê-los adquirir maior autonomia, superar as limitações, trabalhar a coordenação motora e os estigmas. Vê-los nesses territórios, que também pertencem a eles, é muito valioso”, acrescenta Derleide.

S. P., membro assídua do grupo, chega pontualmente ao Caps às terças-feiras. Aplicada às atividades oferecidas, a senhora de 60 anos se diz apaixonada, imprime o próprio olhar e abraça os aprendizados inerentes à prática da fotografia. “Estou em tratamento e aqui vivo a fotografia como uma forma de arte em busca de novos horizontes. Vejo a união profissional, a busca pela cultura e a consolidação de vínculos afetivos”, comenta.

mulher sentada no chão fazendo artesanato
K. S., paciente do Caps Geral da Regional III, encontrou na atividade uma alternativa adequada às próprias necessidades

Arteterapia

Tinta, lápis de cor, papel, cola, barbantes, balões e atividades lúdicas. Elementos com os quais é possível fazer arte, produzir discursos, atribuir sentidos e ressignificar sentimentos. A partir de atividades desenvolvidas por uma equipe composta por médicos, artistas plásticos, psicólogos e arteterapeutas, o grupo de Arteterapia do Caps da Regional III tem impactado diversas vidas.

A iniciativa é oriunda da parceria entre a Prefeitura de Fortaleza e a Universidade Federal do Ceará (UFC). O Caps oferece, por meio de um ateliê de arte, a estrutura adequada ao desempenho das atividades, que acontecem todas as terças-feiras. Os usuários participam de programações relacionadas à temática e aprendem técnicas, aliando os benefícios terapêuticos ao aprimoramento da habilidade artística. Entre os assuntos explorados, estão as formas, os desenhos, as pinturas, os símbolos, as mandalas e os seus significados subjetivos na trajetória de cada um.

“Nosso objetivo é oferecer curso e vivência de arte para estudantes de Medicina e pacientes da Psiquiatria em conjunto. Ao trazer estudantes e colocá-los no mesmo grupo dos pacientes em tratamento, humanizando e quebrando estigmas, exploramos novos e importantes elementos. Os usuários evoluem bem e se sentem pertencentes a um grupo, participantes de um projeto de extensão da Universidade. Isso já traz uma nova identidade. Aqui eles não são vistos como doentes, e sim como seres que aprendem, como eu estou aprendendo”, defende Lia Sanders, médica psiquiatra, professora do Departamento de Medicina da UFC e coordenadora do projeto de extensão Escola Arte Livre.

homem posando para a foto
“É lindo observar a inclusão sociocultural proporcionada pela arte", comenta o artista plástico Ronaldo Vieira

Segundo o artista plástico Ronaldo Vieira, facilitador do Grupo de Arteterapia, todas as atividades desenvolvidas são contextualizadas a partir de um ponto de vista histórico. “É lindo observar, além do acolhimento e da escuta qualificada, a inclusão sociocultural proporcionada pela arte, que favorece o bem-estar dos usuários que nos procuram. Eles são assíduos e apresentam evolução na execução dos trabalhos. Alguns deles, inclusive, vendem quadros”, lembra.

K. S., paciente do Caps Geral da Regional III, encontrou na atividade uma alternativa adequada às próprias necessidades. Diagnosticada com bipolaridade em 2012, utiliza-se, desde então, dos trabalhos manuais para potencializar o tratamento ao qual vem sendo submetida. “Eu não me dou bem com grupos de psicoterapia tradicionais. Lá, minhas feridas sangravam mais. Eu me sentia mais nervosa, ansiosa. Os relatos dos outros pacientes me machucavam pela identificação. Daí surgiu a ideia desse grupo de arte, em que as pessoas aprenderiam técnicas de pintura. Decidi ficar e fui inclusa. Eu gosto de arte. Pintar é um sonho que realizo todos os dias. Por meio dela, busco transmitir coisas boas, alegres, vibrantes. Assim, não caio na depressão”, explica.

Hoje, K. S. se dedica à arte de forma intensa e produtiva. “Venho superando os tremores que sinto nas mãos. Tenho acreditado na minha capacidade de desenhar. Vou me aplicando, refaço as lições em casa, pesquiso, assisto a vídeos no YouTube, busco referências para meus trabalhos autorais, compro telas, papéis. Vendo meus quadros e presenteio as pessoas de quem gosto”, conta.

Influências nacionais e internacionais

Ainda de acordo com Lia Sanders, os benefícios da Arteterapia vêm sendo observados desde a década de 1940. “Um artista plástico britânico, Adrian Hill, foi o primeiro a utilizar esse termo. Para ele, a arte era terapêutica por si. À mesma época, uma psicóloga americana desenvolveu ideias complementares. A pioneira no Brasil foi a Nise da Silveira, no Rio de Janeiro, quando criou um ateliê de arte, em contato permanente com Carl Jung, um médico psicanalista. Ela começou a estudar a expressão dos pacientes por meio de artes, símbolos e mandalas”, acrescenta.

De acordo com as ideias defendidas pela médica psiquiatra Nise da Silveira, “todo mundo deve inventar alguma coisa. A criatividade reúne em si várias funções psicológicas importantes para a restauração da psiquê. O que cura, fundamentalmente, é o estímulo à criatividade”, dizia Nise, falecida em 1999.

mulher de óculos sorrindo para foto
A enfermeira Elieuda Bezerra ministra o Curso de Noções Básicas em Primeiros Socorros

Curso de Noções Básicas em Primeiros Socorros

Nos Centros de Atenção Psicossocial Álcool e outras Drogas de Fortaleza (Caps AD), iniciativas similares têm sido desenvolvidas. Dentre os grupos terapêuticos oferecidos, destaca-se o Curso de Noções Básicas em Primeiros Socorros. A iniciativa visa capacitar usuários para desenvolver procedimentos necessários diante de vítimas acometidas por acidentes ou maus súbitos. O intuito da proposta, além de reduzir o número de óbitos, o tempo de internação e a chance de sequelas, fortalece a autoestima dos usuários em serviço e prepara multiplicadores.

A grade curricular inclui, em perspectiva teórica e prática, técnicas de ressuscitação cardiopulmonar e cuidados indispensáveis em casos de queimaduras, hemorragias, fraturas, convulsões, engasgos, acidentes vasculares cerebrais, desmaios e picadas de insetos. Daniela de Brito, coordenadora do Caps AD da Regional V, reforça o intuito e o alcance da proposta. “Aqui, são repassadas técnicas importantes. Até o momento, duas turmas já foram capacitadas e aprenderam como proceder em momentos de crise. Há uma expectativa de expansão da iniciativa. Após a mensuração dos resultados do curso, o objetivo é propagar para outros Caps, inclusive os gerais”, comenta Daniela.

A enfermeira Elieuda Bezerra avalia a experiência de forma exitosa. “É muito positivo ministrar esse curso, aproximando as lições à realidade do usuário. Convulsão, por exemplo, é algo frequente entre usuários de álcool e drogas. Ou seja, é algo com que eles podem se deparar. Temos visualizado a adesão como positiva. Eles são assíduos, sentem-se felizes aqui. Ao final dessas práticas, é gratificante observar o retorno, a gratidão, a transformação causada”, considera.

O usuário J. R., de 50 anos, relata o impacto das atividades desenvolvidas ao longo de seu tratamento no Caps AD, que acontece há um ano e meio. “Aqui, aprendo coisas que gostaria de ter aprendido na escola. Abandonei os estudos cedo. Só cursei até a quinta série. Sustentei o vício em 15 tipos de drogas por 35 anos. Agora, além de estar me livrando, voltei a dormir em casa e estou recuperando meus bens e minha dignidade”, relata.

mãos manuseando artesanato
O Caps oferece, por meio de um ateliê de arte, a estrutura adequada ao desempenho das atividades, que acontecem todas as terças-feiras

Reestruturação da Rede de Atenção Psicossocial (Raps) de Fortaleza

Ao longo da gestão do prefeito Roberto Cláudio, a Prefeitura de Fortaleza tem investido na reestruturação de toda a Rede de Atenção Psicossocial. Os eixos prioritários contemplam melhorias na infraestrutura dos serviços, a seleção e a capacitação de recursos humanos e a regularização da assistência farmacêutica que garante o abastecimento e a entrega, por meio das Centrais de Distribuição de Medicamentos, dos 34 remédios prioritários para a Saúde Mental.

Serviços da Raps

A gerente da Célula de Atenção à Saúde Mental, Harismana Andrade, reforça a lista dos serviços oferecidos. “A Raps é composta por 23 serviços, entre eles, seis Caps Gerais, sete Caps AD, dois Caps Infantis, três residências terapêuticas e cinco Unidades de Acolhimento. Na perspectiva da reabilitação do nosso usuário, trabalhamos tratamento, reabilitação psicossocial e a reinserção deles na comunidade. Existe a preocupação de se trabalhar um projeto terapêutico construído com a equipe multiprofissional e com a família. Oferecer um trabalho humanizado, fortalecendo e identificando habilidades artísticas. Portanto, além dos acolhimentos, oferecemos grupos terapêuticos, familiares, arteterapêuticos, ações de redução de danos, resgate e fortalecimento de vínculos familiares, apoio matricial e atividades intersetoriais com outros equipamentos do território”, explica.

Nessa perspectiva, são designados tratamentos para as principais dificuldades diagnosticadas. Para a finalidade, considera-se, inclusive, o contexto sociofamiliar. “Em casos de tentativa de suicídio, havendo uma retaguarda familiar, há um diferencial positivo em relação àqueles que vivem sozinhos. São situações gerenciadas de formas diferentes. São oferecidos, também, grupos de família que acolhem os parentes. O cuidado com o paciente, acumulado por anos e anos, é algo que pode adoecer o familiar. Nosso objetivo é oferecer atenção a esse aspecto”, exemplifica Perpétua Sousa, coordenadora do Caps Geral da Regional III.

Novos profissionais

“No tocante aos recursos humanos, realizamos um concurso público com a lotação de 130 profissionais de nível superior, especificamente, para a Rede Caps, entre psicólogos, assistentes sociais, enfermeiros, terapeutas ocupacionais, psiquiatras e clínicos gerais. Passamos a contar, também, com neuropediatras para os Caps infantis e com gestores selecionados”, acrescenta a Harismana.

Atendimentos

Harismana destaca que todas as unidades estão de portas abertas à população. No entanto, orienta que o encaminhamento pode ser realizado na Rede de Atenção Primária. “Os profissionais dos Postos de Saúde podem encaminhar o usuário ao Caps mais próximo em caso de necessidade, mas a pessoa pode buscar ajuda voluntariamente e ter acesso a um acolhimento local, à avaliação e ao início do tratamento”, explica.

Conheça as unidades da Rede Assistencial de Saúde Mental de Fortaleza

Centros de Atenção Psicossocial (Caps) de Fortaleza transformam realidades por meio de serviços terapêuticos

Música, fotografia, teatro, pintura e artesanato estão entre as atividades que fortalecem a reinserção social e resgatam a autoconfiança de pacientes em tratamento

senhora fazendo artesanato
A partir de uma linguagem didática e acessível, as atividades contemplam todos os níveis de capacidade cognitiva

Os Centros de Atenção Psicossocial (Caps) de Fortaleza vêm transformando realidades de pacientes em tratamento. Além das intervenções individuais, pautadas por atendimentos médicos, psicológicos e assistenciais, são desenvolvidas propostas terapêuticas grupais no âmbito da arte. Cinema, música, fotografia, teatro, pintura, escultura e artesanato estão entre as manifestações capazes de fortalecer a reinserção social, resgatar a autoestima e autoconfiança de pessoas diagnosticadas com transtornos mentais de diversas ordens.

A partir de uma linguagem didática e acessível, as atividades contemplam todos os níveis de capacidade cognitiva. “Há um extenso leque de distúrbios assistidos pela Rede de Atenção Psicossocial. Cada quadro apresenta uma manifestação sintomatológica diferente e, portanto, demanda um olhar específico. Dessa forma, torna-se possível desenvolver projetos terapêuticos singulares, individualmente apropriados a cada condição”, explica Perpétua Sousa, coordenadora do Caps Geral da Regional III.

Dentre os impactos positivos observados, elencam-se a potencialização da autonomia, do autocuidado, do convívio saudável, da expressão de sentimentos, da responsabilidade e da habilidade técnica. “A arte é um campo muito rico para se trabalhar com subjetividade, com o sujeito, com a elaboração da realidade”, acrescenta a gestora.

senhora com o rosto em uma câmera fotográfica
"Estou em tratamento e aqui vivo a fotografia como uma forma de arte em busca de novos horizontes", comenta paciente de 60 anos

Arte e Fotografia

Construir discursos, explorar percepções, desbravar ambientes, manifestar subjetividades, compartilhar vivências e desenvolver talentos. Para um grupo de 14 pessoas, pelas lentes de uma câmera fotográfica, a vida tem sido percebida e registrada por novas perspectivas.

Nesse contexto, a bipolaridade, a depressão, a esquizofrenia, os transtornos obsessivos compulsivos e a ansiedade perdem o protagonismo e dão lugar a olhares curiosos e desbravadores diante de uma Capital ainda desconhecida por alguns dos pacientes do Caps Geral da Regional III. A Catedral Metropolitana, o Mercado Central e o Centro Dragão do Mar de Arte e Cultura estão entre os lugares visitados pelo grupo de Arte e Fotografia Trilhas de Fortaleza.

De acordo com Derleide Andrade, assistente social do Caps e coordenadora do grupo, a iniciativa foi lançada em março deste ano e desde então, acontece semanalmente e fortalece a eficácia dos tratamentos medicamentosos tradicionais. “Há alternativas para pacientes com transtornos severos e persistentes. As atividades do grupo de fotografia trazem à tona expressões e emoções. Ao visitar e fotografar espaços culturais, praças e prédios históricos, o paciente em tratamento vai perdendo o medo e adquirindo a própria percepção do ambiente em que vive. Uma vez que se extrapolam os muros da própria casa e do Caps, trabalha-se o olhar da sociedade para o paciente e do paciente para a sociedade”, destaca.

As atividades incluem, ainda, a apresentação de documentários temáticos, a exposição das fotografias produzidas, o registro das impressões das vivências em campo e a troca de experiências. Os recursos e os materiais indispensáveis são adquiridos por meio da união de esforços intersetoriais que incluem doações de câmeras e empréstimos de celulares. “Esta é uma forma de valorizar o trabalho deles. É gratificante vê-los adquirir maior autonomia, superar as limitações, trabalhar a coordenação motora e os estigmas. Vê-los nesses territórios, que também pertencem a eles, é muito valioso”, acrescenta Derleide.

S. P., membro assídua do grupo, chega pontualmente ao Caps às terças-feiras. Aplicada às atividades oferecidas, a senhora de 60 anos se diz apaixonada, imprime o próprio olhar e abraça os aprendizados inerentes à prática da fotografia. “Estou em tratamento e aqui vivo a fotografia como uma forma de arte em busca de novos horizontes. Vejo a união profissional, a busca pela cultura e a consolidação de vínculos afetivos”, comenta.

mulher sentada no chão fazendo artesanato
K. S., paciente do Caps Geral da Regional III, encontrou na atividade uma alternativa adequada às próprias necessidades

Arteterapia

Tinta, lápis de cor, papel, cola, barbantes, balões e atividades lúdicas. Elementos com os quais é possível fazer arte, produzir discursos, atribuir sentidos e ressignificar sentimentos. A partir de atividades desenvolvidas por uma equipe composta por médicos, artistas plásticos, psicólogos e arteterapeutas, o grupo de Arteterapia do Caps da Regional III tem impactado diversas vidas.

A iniciativa é oriunda da parceria entre a Prefeitura de Fortaleza e a Universidade Federal do Ceará (UFC). O Caps oferece, por meio de um ateliê de arte, a estrutura adequada ao desempenho das atividades, que acontecem todas as terças-feiras. Os usuários participam de programações relacionadas à temática e aprendem técnicas, aliando os benefícios terapêuticos ao aprimoramento da habilidade artística. Entre os assuntos explorados, estão as formas, os desenhos, as pinturas, os símbolos, as mandalas e os seus significados subjetivos na trajetória de cada um.

“Nosso objetivo é oferecer curso e vivência de arte para estudantes de Medicina e pacientes da Psiquiatria em conjunto. Ao trazer estudantes e colocá-los no mesmo grupo dos pacientes em tratamento, humanizando e quebrando estigmas, exploramos novos e importantes elementos. Os usuários evoluem bem e se sentem pertencentes a um grupo, participantes de um projeto de extensão da Universidade. Isso já traz uma nova identidade. Aqui eles não são vistos como doentes, e sim como seres que aprendem, como eu estou aprendendo”, defende Lia Sanders, médica psiquiatra, professora do Departamento de Medicina da UFC e coordenadora do projeto de extensão Escola Arte Livre.

homem posando para a foto
“É lindo observar a inclusão sociocultural proporcionada pela arte", comenta o artista plástico Ronaldo Vieira

Segundo o artista plástico Ronaldo Vieira, facilitador do Grupo de Arteterapia, todas as atividades desenvolvidas são contextualizadas a partir de um ponto de vista histórico. “É lindo observar, além do acolhimento e da escuta qualificada, a inclusão sociocultural proporcionada pela arte, que favorece o bem-estar dos usuários que nos procuram. Eles são assíduos e apresentam evolução na execução dos trabalhos. Alguns deles, inclusive, vendem quadros”, lembra.

K. S., paciente do Caps Geral da Regional III, encontrou na atividade uma alternativa adequada às próprias necessidades. Diagnosticada com bipolaridade em 2012, utiliza-se, desde então, dos trabalhos manuais para potencializar o tratamento ao qual vem sendo submetida. “Eu não me dou bem com grupos de psicoterapia tradicionais. Lá, minhas feridas sangravam mais. Eu me sentia mais nervosa, ansiosa. Os relatos dos outros pacientes me machucavam pela identificação. Daí surgiu a ideia desse grupo de arte, em que as pessoas aprenderiam técnicas de pintura. Decidi ficar e fui inclusa. Eu gosto de arte. Pintar é um sonho que realizo todos os dias. Por meio dela, busco transmitir coisas boas, alegres, vibrantes. Assim, não caio na depressão”, explica.

Hoje, K. S. se dedica à arte de forma intensa e produtiva. “Venho superando os tremores que sinto nas mãos. Tenho acreditado na minha capacidade de desenhar. Vou me aplicando, refaço as lições em casa, pesquiso, assisto a vídeos no YouTube, busco referências para meus trabalhos autorais, compro telas, papéis. Vendo meus quadros e presenteio as pessoas de quem gosto”, conta.

Influências nacionais e internacionais

Ainda de acordo com Lia Sanders, os benefícios da Arteterapia vêm sendo observados desde a década de 1940. “Um artista plástico britânico, Adrian Hill, foi o primeiro a utilizar esse termo. Para ele, a arte era terapêutica por si. À mesma época, uma psicóloga americana desenvolveu ideias complementares. A pioneira no Brasil foi a Nise da Silveira, no Rio de Janeiro, quando criou um ateliê de arte, em contato permanente com Carl Jung, um médico psicanalista. Ela começou a estudar a expressão dos pacientes por meio de artes, símbolos e mandalas”, acrescenta.

De acordo com as ideias defendidas pela médica psiquiatra Nise da Silveira, “todo mundo deve inventar alguma coisa. A criatividade reúne em si várias funções psicológicas importantes para a restauração da psiquê. O que cura, fundamentalmente, é o estímulo à criatividade”, dizia Nise, falecida em 1999.

mulher de óculos sorrindo para foto
A enfermeira Elieuda Bezerra ministra o Curso de Noções Básicas em Primeiros Socorros

Curso de Noções Básicas em Primeiros Socorros

Nos Centros de Atenção Psicossocial Álcool e outras Drogas de Fortaleza (Caps AD), iniciativas similares têm sido desenvolvidas. Dentre os grupos terapêuticos oferecidos, destaca-se o Curso de Noções Básicas em Primeiros Socorros. A iniciativa visa capacitar usuários para desenvolver procedimentos necessários diante de vítimas acometidas por acidentes ou maus súbitos. O intuito da proposta, além de reduzir o número de óbitos, o tempo de internação e a chance de sequelas, fortalece a autoestima dos usuários em serviço e prepara multiplicadores.

A grade curricular inclui, em perspectiva teórica e prática, técnicas de ressuscitação cardiopulmonar e cuidados indispensáveis em casos de queimaduras, hemorragias, fraturas, convulsões, engasgos, acidentes vasculares cerebrais, desmaios e picadas de insetos. Daniela de Brito, coordenadora do Caps AD da Regional V, reforça o intuito e o alcance da proposta. “Aqui, são repassadas técnicas importantes. Até o momento, duas turmas já foram capacitadas e aprenderam como proceder em momentos de crise. Há uma expectativa de expansão da iniciativa. Após a mensuração dos resultados do curso, o objetivo é propagar para outros Caps, inclusive os gerais”, comenta Daniela.

A enfermeira Elieuda Bezerra avalia a experiência de forma exitosa. “É muito positivo ministrar esse curso, aproximando as lições à realidade do usuário. Convulsão, por exemplo, é algo frequente entre usuários de álcool e drogas. Ou seja, é algo com que eles podem se deparar. Temos visualizado a adesão como positiva. Eles são assíduos, sentem-se felizes aqui. Ao final dessas práticas, é gratificante observar o retorno, a gratidão, a transformação causada”, considera.

O usuário J. R., de 50 anos, relata o impacto das atividades desenvolvidas ao longo de seu tratamento no Caps AD, que acontece há um ano e meio. “Aqui, aprendo coisas que gostaria de ter aprendido na escola. Abandonei os estudos cedo. Só cursei até a quinta série. Sustentei o vício em 15 tipos de drogas por 35 anos. Agora, além de estar me livrando, voltei a dormir em casa e estou recuperando meus bens e minha dignidade”, relata.

mãos manuseando artesanato
O Caps oferece, por meio de um ateliê de arte, a estrutura adequada ao desempenho das atividades, que acontecem todas as terças-feiras

Reestruturação da Rede de Atenção Psicossocial (Raps) de Fortaleza

Ao longo da gestão do prefeito Roberto Cláudio, a Prefeitura de Fortaleza tem investido na reestruturação de toda a Rede de Atenção Psicossocial. Os eixos prioritários contemplam melhorias na infraestrutura dos serviços, a seleção e a capacitação de recursos humanos e a regularização da assistência farmacêutica que garante o abastecimento e a entrega, por meio das Centrais de Distribuição de Medicamentos, dos 34 remédios prioritários para a Saúde Mental.

Serviços da Raps

A gerente da Célula de Atenção à Saúde Mental, Harismana Andrade, reforça a lista dos serviços oferecidos. “A Raps é composta por 23 serviços, entre eles, seis Caps Gerais, sete Caps AD, dois Caps Infantis, três residências terapêuticas e cinco Unidades de Acolhimento. Na perspectiva da reabilitação do nosso usuário, trabalhamos tratamento, reabilitação psicossocial e a reinserção deles na comunidade. Existe a preocupação de se trabalhar um projeto terapêutico construído com a equipe multiprofissional e com a família. Oferecer um trabalho humanizado, fortalecendo e identificando habilidades artísticas. Portanto, além dos acolhimentos, oferecemos grupos terapêuticos, familiares, arteterapêuticos, ações de redução de danos, resgate e fortalecimento de vínculos familiares, apoio matricial e atividades intersetoriais com outros equipamentos do território”, explica.

Nessa perspectiva, são designados tratamentos para as principais dificuldades diagnosticadas. Para a finalidade, considera-se, inclusive, o contexto sociofamiliar. “Em casos de tentativa de suicídio, havendo uma retaguarda familiar, há um diferencial positivo em relação àqueles que vivem sozinhos. São situações gerenciadas de formas diferentes. São oferecidos, também, grupos de família que acolhem os parentes. O cuidado com o paciente, acumulado por anos e anos, é algo que pode adoecer o familiar. Nosso objetivo é oferecer atenção a esse aspecto”, exemplifica Perpétua Sousa, coordenadora do Caps Geral da Regional III.

Novos profissionais

“No tocante aos recursos humanos, realizamos um concurso público com a lotação de 130 profissionais de nível superior, especificamente, para a Rede Caps, entre psicólogos, assistentes sociais, enfermeiros, terapeutas ocupacionais, psiquiatras e clínicos gerais. Passamos a contar, também, com neuropediatras para os Caps infantis e com gestores selecionados”, acrescenta a Harismana.

Atendimentos

Harismana destaca que todas as unidades estão de portas abertas à população. No entanto, orienta que o encaminhamento pode ser realizado na Rede de Atenção Primária. “Os profissionais dos Postos de Saúde podem encaminhar o usuário ao Caps mais próximo em caso de necessidade, mas a pessoa pode buscar ajuda voluntariamente e ter acesso a um acolhimento local, à avaliação e ao início do tratamento”, explica.

Conheça as unidades da Rede Assistencial de Saúde Mental de Fortaleza